segunda-feira, 12 de novembro de 2012

O inadaptado

«Einstein fundava um núcleo desesperado dos sábios do átomo, a ameaça de uma guerra total pairava sobre a humanidade dividida em dois blocos. O meu pai morria sem nada ter perdido a fé no futuro, e eu já não o compreendia (...) Tendo-me dado tudo, idealizara a minha alma semelhante à dele. A seus olhos, eu devia tornar-me um farol, um homem capaz de esclarecer os outros homens, de lhes dar coragem e esperança, de lhes mostrar, como ele dizia, a luz que brilha no fundo de nós. Mas eu não via qualquer espécie de luz, senão a luz negra, em mim e no fundo da humanidade. Não passava de um letrado semelhante a tantos outros. Levava até às consequências extremas esse sentimento de exílio, essa necessidade de revolta radical que se exprimia nas revistas literárias, por volta de 1947, ao falar de «inquietação metafísica», e que constituíram a complicada herança da minha geração. Nestas condições, de que maneira ser um farol? Esta ideia, esta expressão à Vítor Hugo faziam-me sorrir maldosamente (...) Para o meu pai, a aventura humana tinha uma direcção. Ele julgava os acontecimentos conforme se situavam ou não nessa direcção. A história tinha um sentido: ela evoluía para qualquer forma de ultra-humano, trazia em si a promessa de uma superconsciência. A sua filosofia cósmica não o separava do século. No presente, as suas adesões eram «progressistas». Eu irritava-me, sem perceber que ela punha uma espiritualidade infinitamente maior no seu progressismo do que os progressos que eu fazia na minha espiritualidade. No entanto, eu sufocava no meu pensamento limitado. Diante daquele homem sentia-me por vezes um pequeno intelectual árido e transido e, acontecia-me desejar pensar como ele (...) Mas com a ajuda do cansaço ele exaltava-se (...) contra o destino que lhe dera um grande pensamento sem lhe conceder os meios de o transferir para esse filho de sangue rebelde, e separávamo-nos encolerizados e indispostos (...) Depois de súbito, começava a assobiar entre dentes, os primeiros compassos do «Hino à Alegria» de Beethoven, para me dizer de longe que o amor encontra sempre os seus. Penso nele quase todas as noites, à hora das nossas antigas discussões (...) Agora, alio-me de novo a ele, mas após quantas pesquisas, muitas vezes inúteis, e perigosas divagações! Podia ter conciliado, muito mais cedo, o gosto pela vida interior e o amor pelo mundo em movimento. Podia ter construído mais cedo, e talvez com maior eficácia, quando as minhas forças estavam intactas, uma ponte entre a mística e o espírito moderno. Ter-me-ia sentido simultaneamente religioso e solidário com o grande impulso da história (...). Mas todo o excesso é esclarecedor. Podia ter descoberto mais cedo um meio de comunicação com a minha época. Pode ser que não tenha perdido totalmente o tempo ao ir até ao extremo da minha procura. Não acontece aos homens aquilo que eles merecem, mas sim o que se lhes assemelha. Procurei durante muito tempo, como o desejava o Rimbaud da minha adolescência, «a Verdade numa alma e num corpo». Não o consegui. Na perseguição dessa Verdade perdi o contacto com as pequenas verdades que teriam feito de mim, não decerto o super-homem por que ansiava, mas um homem melhor e mais unificado do que sou. No entanto, aprendi, a respeito do comportamento profundo do espírito, dos diversos estados possíveis da consciência, da memória e da intuição, coisas preciosas que não teria aprendido de outra forma e que me permitiram, mais tarde, compreender o que há de grandioso, de essencialmente revolucionário na base do espírito moderno: a interrogação sobre a natureza do acontecimento e a necessidade imperiosa de uma espécie de transmutação da inteligência. Quando saí do meu nicho de Yogi para lançar um golpe de vista sobre este mundo moderno que eu condenava sem o conhecer, aprendi repentinamente o maravilhoso. O meu estudo reaccionário, tão cheio de orgulho e de ódio, fora útil na medida em que me impedira de aderir a este mundo pelo lado mau: o velho racionalismo do século XIX, o progressismo demagógico. Impedira-me igualmente de aceitar este mundo como uma coisa natural e simplesmente porque era o meu, de o aceitar num estado de consciência sonolenta, como acontece à maior parte das pessoas. Com os olhos remoçados por essa longa permanência fora do meu tempo, vi este mundo tão rico em fantástico real como o mundo da tradição era para mim em fantástico suposto. Melhor ainda: aquilo que aprendia sobre a época modificava, aprofundando-o, o meu conhecimento do espírito antigo. Vi as coisas antigas com um olhar novo, e os meus olhos estavam igualmente novos para ver as coisas novas».

in  O Despertar dos Mágicos, Louis Pauwels | Jacques Bergier

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